Psicóloga e IA
Clarice, obrigada por confiar em compartilhar algo tão sensível. Antes de tudo, quero validar o que você descreveu: sentir vazio ao entrar no consultório, choro pré-sessão, medo de não ser boa o suficiente e pensamentos de desistir são sinais importantes de sofrimento e merecem atenção. Esses sintomas podem ter várias origens, não há uma única explicação automática aos 48 anos. Você pode estar diante de exaustão profissional (burnout), desmotivação ou crise de sentido na carreira, reação a perdas pessoais ou mudanças de vida, o acúmulo de desgaste emocional pelo trabalho clínico (contaminação emocional ou fadiga por compaixão), um processo depressivo, ou simplesmente um cansaço profundo que precisa de descanso e reestruturação. Nem sempre é aposentadoria psicológica nem necessariamente síndrome da fadiga crônica no sentido médico. O que descreve, com choro recorrente e medo antes das sessões, sugere que o trabalho está gerando angústia imediata, e isso merece intervenção antes que se instale algo mais grave.
Para diferenciar possibilidades, observe duração, padrão e outros sinais. Se esse estado é recente e aparece claramente associado ao contexto do trabalho, melhora após férias ou mudanças temporárias na rotina, provavelmente aponta mais para exaustão, desgaste e necessidade de recuperação. Se persiste por meses, vem acompanhado de perda de prazer generalizada, alterações do sono, apetite, lentificação, sentimento de inutilidade ou pensamentos de morte, é importante considerar depressão e procurar avaliação com profissional de saúde mental. A síndrome da fadiga crônica tem critérios médicos específicos, sintomas físicos marcantes, como cansaço extremo após esforço, sono não reparador e piora com atividade física ou mental prolongada; sua confirmação depende de avaliação médica e de exclusão de outras causas. Como psicóloga, você saberá que o diagnóstico exige avaliação cuidadosa e, quando há dúvida, encaminhar ao médico/neurologista ou ao seu próprio serviço de saúde para exames e avaliação clínica é prudente.
Sem fazer perguntas, posso sugerir caminhos a considerar. Primeiro, interromper a rotina habitual por um período pode ser esclarecedor: uma pausa profissional planejada, redução de carga horária, ou férias mais longas com limites claros para trabalho e disponibilidade emocional, pode ajudar a testar se o problema é exaustão reversível. Se o sofrimento reduzir significativamente com descanso e mudança temporária, é sinal de que a recuperação e ajustes na rotina podem bastar. Em paralelo, revisitar sua prática clínica pode ser útil: que tipo de pacientes você tem atendido ultimamente, houve algum caso particularmente difícil ou um acúmulo de demandas que mudou o tom das sessões, houve perdas pessoais ou mudanças na vida que retiraram o sentido que antes movia seu trabalho? Reavaliar seus objetivos profissionais, o tipo de atendimento, o setting e os limites terapêuticos pode abrir espaço para ajustes sem largar a profissão.
Outra possibilidade é procurar suporte profissional para você mesma. Mesmo sendo psicóloga, ter um psicoterapeuta ou um colega supervisor para processar o desgaste emocional faz diferença. A supervisão clínica ou terapia pessoal pode ajudar a identificar se o vazio é reflexo de contra-transmissão acumulada, esgotamento, questões existenciais ou mudanças de valores que pedem reconversão. Buscar suporte terapêutico é um passo prático e responsável, não sinal de fracasso. Também considere espaços de descompressão: grupos de apoio, grupos de estudo, cursos ou mesmo práticas que renovem sua energia profissional, como adquirir novos conhecimentos, mudar a população atendida, testar outro formato de intervenção (grupos, psicoterapia breve, teleatendimento se já não usa, ou vice-versa).
Se houver preocupação com elementos físicos, como exaustão persistente, dores, sono perturbado, dificuldade cognitiva ou queda acentuada de energia mesmo após descanso, consulte um médico para investigar causas médicas, distúrbios do sono, endocrinológicas ou neurológicas. Descartar causas médicas é importante antes de concluir que tudo é apenas psicológico. Importante também cuidar da rotina: sono regular, alimentação, movimento moderado e limites claros entre trabalho e vida pessoal ajudam a restaurar recursos emocionais.
Quanto à pergunta sobre mudar de carreira: sair após 20 anos de prática é uma decisão complexa que merece planejamento. Antes de desistir definitivamente, experimente intervenções graduais: reduzir atendimentos, tirar um período sabático, testar atividades paralelas que tragam sentido, requalificação em áreas adjacentes ou até trabalho comunitário que restabeleça propósito. Avalie valores atuais, o que lhe dá sentido hoje, não somente o que funcionou há vinte anos. Se, mesmo após tentativas de descanso, supervisão e reformulação do trabalho, o vazio persistir e você sentir que não há mais identificação com a clínica, planejar uma transição cuidadosa, com formação para outra área e suporte financeiro, é mais seguro e respeitoso consigo mesma do que uma decisão abrupta baseada em exaustão.
Se houver pensamentos frequentes de desistir por completo, ou se o choro se intensificar, surgirem pensamentos de autossabotagem ou autolesão, procure ajuda imediata. Suporte emergencial é essencial se houver risco à sua integridade. Como psicóloga, você deve saber que agir cedo reduz dano e abre possibilidades de reconstrução da carreira ou reorientação com mais segurança.
Em suma, suas sensações podem refletir exaustão profissional, crise de sentido, depressão, fadiga por compaixão ou, menos provavelmente sem avaliação médica, síndrome da fadiga crônica. Iniciar por: pausa planejada, avaliação médica, terapia ou supervisão, ajustes na carga e no tipo de atendimento, e exploração de novos projetos profissionais em paralelo, é um caminho prático. Não precisa decidir tudo de uma vez: testar mudanças menores e buscar apoio vai permitir avaliar se é apenas um pedido de descanso do seu corpo e mente ou a indicação de uma mudança de rota mais profunda. Você merece cuidado cuidadoso e compassivo nesse momento; proteger sua saúde emocional também é proteger a qualidade do cuidado que oferece a seus pacientes.