Psicóloga e IA
Olá, Clara. Agradeço por compartilhar sua experiência com tanta honestidade. É compreensível que esteja passando por um momento de transição complexo, onde aspectos físicos e emocionais se entrelaçam. Vamos explorar isso juntos.
Em primeiro lugar, é crucial validar que a dor que você sente é real, independente de sua origem. O fato de os exames não apontarem uma causa física grave não torna a sua experiência menos verdadeira ou digna de atenção. O corpo e a mente estão profundamente conectados, e emoções intensas podem se manifestar fisicamente, especialmente em órgãos sensíveis como o estômago. A ansiedade, o medo e a incerteza são estados que ativam o sistema nervoso, podendo gerar tensão muscular, alterações na digestão e sensação de dor. Portanto, é muito provável que a aproximação da aposentadoria e as pressões externas estejam contribuindo significativamente para o seu desconforto físico.
Para começar a separar essas dimensões, sugiro que observe os padrões. Perceba se a dor surge ou se intensifica em momentos específicos: quando pensa no trabalho que deixará, ao conversar com suas filhas sobre planos futuros ou quando se vê diante do tempo vago que antes era preenchido pela rotina profissional. Identificar os gatilhos emocionais é um passo fundamental para entender a origem da dor. Ao mesmo tempo, manter o acompanhamento médico é essencial para monitorar qualquer alteração física que possa surgir.
Sua descrição sobre ser ativa e independente revela que a identidade profissional é uma parte central da sua vida. A aposentadoria, mais do que uma mudança de rotina, pode sentir-se como uma perda de papel social, de propósito e de estrutura. A pressão para "aproveitar a vida" de uma forma pré-definida pelos outros, como viajar, pode criar uma expectativa avassaladora, gerando mais ansiedade em vez de alívio. É permitido não se sentir preparada e é saudável respeitar o seu próprio ritmo de adaptação.
O afastamento das atividades que você ama, como a aula de dança, é um sinal importante. Embora seja um comportamento comum quando nos sentimos sobrecarregados, ele pode alimentar um ciclo de isolamento e desconforto. Encorajo você a, aos poucos, considerar retomar esse contato. Reconectar-se com pequenos prazeres pode ser um antídoto para o sentimento de vazio e uma forma gentil de reconstruir uma nova rotina significativa, no seu próprio tempo.
Neste processo, a psicoterapia pode ser um espaço valioso. Ela oferece suporte para elaborar essa transição, resgatar aspectos da sua identidade além da função profissional e desenvolver estratégias para manejar a ansiedade e as expectativas, tanto suas quanto das pessoas ao seu redor. Trabalhar essas questões emocionais pode, consequentemente, aliviar a tensão física que se acumula no seu corpo. Lembre-se de que buscar ajuda para navegar por essa fase é um ato de cuidado consigo mesma, e não um sinal de fraqueza. Você está diante de um marco significativo, e é natural que ele traga questionamentos e desconfortos que se expressam de várias formas, inclusive fisicamente.