Psicóloga e IA
Olá, Helena. Obrigada por compartilhar sua experiência com tanta clareza. O que você descreve é muito comum em pessoas que assumem posições de liderança sem que as tarefas anteriores sejam redistribuídas. O primeiro passo é reconhecer que o problema não é uma falha sua, mas uma falta de estruturação de papéis e limites. Você menciona que vive em estado de alerta, mesmo quando nada urgente acontece, o que indica que seu sistema nervoso está sobrecarregado por uma antecipação constante de demandas. Isso não é ansiedade clínica, mas uma resposta natural a um ambiente que não diferencia tempo de trabalho e tempo pessoal.
Para reorganizar seus limites, sugiro começar por uma análise concreta das tarefas que você ainda executa. Liste tudo o que faz ao longo de uma semana e classifique cada atividade como estratégica, operacional ou urgente. Pergunte-se: quais dessas tarefas poderiam ser delegadas, automatizadas ou simplesmente eliminadas? Você menciona que sua equipe espera orientações detalhadas para quase tudo. Isso pode indicar que eles ainda não desenvolveram autonomia porque você, mesmo sem intenção, centraliza decisões. Uma liderança eficaz não é a que resolve todos os problemas, mas a que ensina a equipe a resolvê-los. Comece definindo quais decisões podem ser tomadas por eles sem consulta, quais exigem sua validação e quais são exclusivamente suas. Comunique isso de forma clara, preferencialmente por escrito, para que todos saibam o que se espera.
Quanto à sua supervisora, o envio de demandas urgentes por diferentes canais fragmenta sua atenção e impede que você priorize. Proponha uma conversa formal para alinhar um único canal oficial para solicitações urgentes e um prazo mínimo de antecedência para novas tarefas. Use argumentos baseados em resultados: explique que a dispersão de canais tem reduzido sua capacidade de entregar o estratégico. Não se trata de recusar trabalho, mas de organizar o fluxo. Se ela insistir em manter o padrão atual, você pode estabelecer horários fixos para checar cada canal, por exemplo, duas vezes ao dia, e deixar claro que fora desses horários você não responderá, exceto em emergências reais. Limites não são muros, são pontes para relações mais previsíveis e saudáveis.
Sobre o medo de parecer pouco colaborativa ou de decepcionar a direção, é importante diferenciar colaboração de disponibilidade irrestrita. Colaborar é contribuir com o que você tem de melhor, e isso inclui sua capacidade de pensar estrategicamente, o que exige tempo protegido. Você não precisa abandonar sua equipe, mas precisa abandonar a ideia de que ser uma boa líder significa estar acessível 24 horas por dia. Comece com pequenas mudanças, como não levar o computador para casa por dois dias na semana. Observe o que acontece. Provavelmente, o mundo não desaba, e você começa a recuperar energia.
Para lidar com a dificuldade de descansar, experimente criar rituais de transição entre trabalho e casa. Pode ser uma caminhada de dez minutos, trocar de roupa, ouvir uma música específica, ou escrever em um caderno as pendências do dia seguinte. O objetivo é sinalizar ao seu cérebro que o expediente terminou. Sua companheira menciona que você está emocionalmente distante. Converse com ela sobre o que você está tentando mudar e peça apoio, por exemplo, para que ela te lembre de não checar mensagens durante o jantar. Relacionamentos se fortalecem quando compartilhamos não apenas o sucesso, mas também a luta para mudar padrões insustentáveis.
Se, mesmo após essas tentativas, você continuar sentindo que não consegue se desconectar, pode ser útil buscar um acompanhamento psicológico individual. Não porque você está doente, mas porque mudar hábitos enraizados de trabalho e medo de conflito exige um espaço de reflexão e ensaio de novas posturas. Como psicóloga, posso dizer que a terapia é um laboratório para testar limites sem colocar sua reputação em risco. Considere também conversar com recursos humanos ou com um mentor interno sobre a possibilidade de redistribuir formalmente as tarefas operacionais. Às vezes, a instituição precisa reconhecer que uma promoção exige mudança de escopo, e não apenas acúmulo de funções.
Por fim, lembre-se de que estabelecer limites não é um ato de egoísmo, mas de responsabilidade com sua saúde e com a qualidade do seu trabalho. Você não precisa ser perfeita para ser respeitada. Precisa ser coerente. Comece hoje com uma única mudança: escolha um horário para desligar as notificações do trabalho. Amanhã, outra. Aos poucos, você vai reconstruindo não apenas sua rotina, mas também sua identidade profissional e pessoal. Estou aqui torcendo por você.