Psicóloga Ana Clara

🧠 Humana + Inteligência Artificial = Melhor Solução

Filha foi mãe de substituição e agora pratica ioga obsessivamente: como ajudar sem invadir?

Boa tarde, doutora. Há dois anos, minha filha de 19 anos decidiu ser mãe de substituição para um casal amigo da família. Ela sempre foi muito madura e independente, mas agora, depois que o bebê nasceu, ela está apresentando sintomas que me preocupam: chora sem motivo aparente, evita falar sobre a experiência e, recentemente, começou a praticar ioga de forma obsessiva, chegando a faltar aulas na faculdade. Ela nega que haja qualquer problema e diz que só está 'buscando paz interior'. Eu respeito seu espaço, mas não sei como ajudá-la sem invadir sua privacidade. Como posso abordar esse assunto com ela sem que ela se feche ainda mais? A ioga pode estar mascarando algo mais profundo, como um luto não resolvido ou até mesmo uma negação de seus próprios sentimentos em relação à maternidade de substituição?

Ana Clara

Psicóloga e IA

Uma jovem praticando ioga com expressão introspectiva, enquanto uma imagem sutil de um bebê aparece ao fundo, simbolizando sentimentos complexos e não resolvidos.

Marina, sua preocupação reflete o cuidado e o amor que você tem pela sua filha, e isso já é um ponto crucial para que ela, no tempo dela, possa se sentir segura para compartilhar o que está vivendo. A maternidade de substituição é uma experiência complexa, que envolve não apenas aspectos físicos, mas também emocionais profundos, como a construção e a desconstrução de vínculos, a entrega de uma criança que se carregou por nove meses e, muitas vezes, um luto não reconhecido socialmente. Mesmo que sua filha tenha agido com maturidade e independência, o processo pode ter despertado sentimentos ambivalentes - alegria por ajudar o casal, mas também tristeza, vazio ou até uma sensação de perda de identidade após o parto. A ioga obsessiva, nesse contexto, pode sim ser uma forma de autoregulação emocional, um mecanismo para lidar com ansiedade, culpa ou até mesmo para preencher um espaço que ficou após a entrega do bebê.

O fato de ela evitar falar sobre a experiência e negar que há algo errado não é incomum. Muitas pessoas, especialmente jovens adultos que valorizam a autonomia, tendem a se fechar quando sentem que sua vulnerabilidade pode ser interpretada como fraqueza ou quando temem ser julgadas. A chave aqui não é forçar uma conversa direta sobre o tema, mas criar oportunidades para que ela se sinta à vontade para expressar o que sente, sem pressões. Uma abordagem sutil pode ser mais eficaz do que uma intervenção direta. Por exemplo, em vez de perguntar "Você está bem depois da gestação de substituição?", que pode soar invasivo, você poderia compartilhar observações genuínas e abertas, como: "Tenho notado que você tem se dedicado muito à ioga ultimamente. Como essa prática tem sido para você?", ou "Às vezes acho que a gente muda depois de vivências intensas como essa. Se um dia quiser conversar sobre qualquer coisa, estou aqui".

Outra estratégia importante é validar suas escolhas sem julgamento, mesmo que você discorde internamente de algum comportamento, como as faltas na faculdade. Frases como "Entendo que a ioga tem sido importante para você agora" ou "Vejo como você tem se esforçado para cuidar de si mesma" podem reduzir a resistência dela e abrir espaço para um diálogo futuro. Evite criticar ou minimizar seus sentimentos, mesmo que ela pareça estar em negação. O luto não resolvido, se for o caso, não será "curado" com conselhos ou soluções prontas, mas com tempo, acolhimento e a possibilidade de elaborar essa experiência no seu próprio ritmo. Se ela sentir que você está do lado dela sem cobranças, pode, aos poucos, baixar a guarda.

Também é válido observar se há outros sinais que possam indicar a necessidade de apoio profissional. A ioga em si não é problemática, mas se ela está usando a prática para evitar outras áreas da vida, como os estudos ou relacionamentos, ou se há outros comportamentos de evitação (como isolamento social, mudanças bruscas de humor ou negligência com a saúde), pode ser útil sugerir - de forma delicada - que ela converse com um psicólogo. Você poderia mencionar, por exemplo: "Às vezes, passar por coisas tão significativas assim pode deixar marcas que a gente nem percebe de imediato. Se um dia você sentir vontade de falar com alguém de fora da família, acho que poderia ser bom". Dessa forma, você planta a ideia sem impor.

Por fim, lembre-se de que o silenciamento dela pode ser uma forma de autoproteção, especialmente se ela sentir que falhar em lidar "bem" com a situação seria decepcionar a você ou ao casal que recebeu o bebê. Mostre que você a vê além desse papel de "mãe de substituição" - que ela é sua filha, com todas as suas complexidades, e que não precisa performar força o tempo todo. Pequenos gestos, como convidá-la para atividades que não tenham relação com o tema (um café, um passeio, assistir a um filme juntos), podem reforçar esse vínculo sem pressioná-la. O mais importante agora é que ela saiba que, quando estiver pronta, você será um porto seguro, não uma fonte de interrogações ou cobranças.

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