Psicóloga e IA
Olá, Luna. Sua pergunta toca em um ponto fundamental do processo de autoconhecimento: a transição entre a consciência adquirida em um ambiente seguro e a aplicação prática dessa consciência na complexidade do dia a dia. Você descreve com clareza um ciclo comum, onde o insight surge durante a prática, mas a mudança de comportamento fora dela parece escorregadia. Vamos explorar isso.
Primeiro, é importante validar o que você já conquistou. O reconhecimento do padrão, o samskara, é um passo enorme e não deve ser subestimado. Muitas pessoas passam a vida repetindo comportamentos sem nunca os identificar. Sua prática de ioga, especialmente com o componente meditativo, criou o espaço interno necessário para que essa memória e a emoção associada a ela viessem à tona. Isso por si só já é uma forma de integração, pois você trouxe à luz algo que estava operando nas sombras da sua mente.
Agora, sobre como transformar esse insight em mudança real. A filosofia do ioga oferece ferramentas além do reconhecimento. O conceito de abhyasa (prática constante) e vairagya (desapego) pode ser aplicado aqui. A mudança exige uma prática deliberada e paciente fora do tapete. Você pode começar com pequenos exercícios de 'reprogramação'. Por exemplo, quando receber um elogio, mesmo que a voz interna imediata seja a do seu pai, faça uma pausa consciente de um ou dois segundos. Nessa pausa, respire fundo e escolha uma resposta diferente, mesmo que soe mecânica no início. Pode ser um simples 'Obrigada, fico feliz que tenha gostado'. O objetivo não é sentir a verdade absoluta da frase no primeiro momento, mas quebrar a automatismo da resposta antiga. É como criar um novo sulco, um novo samskara, ao lado do antigo.
Quanto à intensidade das emoções no momento real, isso é perfeitamente normal. No tapete, você está em um estado de relativa segurança e abertura. No trabalho, os gatilhos são súbitos e as defesas do ego estão ativas. A ioga pode ajudar a construir resiliência emocional para esses momentos, mas o processo é gradual. Práticas de pranayama (controle da respiração) fora do contexto da aula, como algumas respirações profundas antes de uma reunião ou quando sentir a ansiedade surgir, podem ser uma ponte direta para acalmar o sistema nervoso e criar aquele espaço de pausa necessário para uma resposta mais consciente.
Sua questão sobre a ioga ser suficiente é muito pertinente. A ioga é uma ferramenta poderosa de autoconhecimento e regulação, mas ela não substitui a psicoterapia. Elas são abordagens complementares. A terapia tradicional, como a terapia cognitivo-comportamental ou as abordagens baseadas em evidências, oferece um espaço estruturado para investigar a origem desses padrões, trabalhar as crenças nucleares (como 'minhas conquistas não têm valor') e desenvolver estratégias específicas de reestruturação cognitiva. Enquanto a ioga trabalha muito no nível corporal e energético das memórias, a terapia trabalha no nível narrativo e cognitivo. Juntas, podem ser extremamente eficazes.
Para conciliar as duas sem sobrecarga, pense em integração, não em soma. Você não precisa ter duas 'tarefas' pesadas. Veja a terapia como o espaço da fala e da análise, e a ioga como o espaço da experiência corporal e do silêncio interior. Comunique-se com seus profissionais: conte à sua professora de ioga que está em terapia e à sua terapeuta sobre suas descobertas na ioga. Isso permite que ambos a orientem de forma mais integrada. Escute seu corpo e sua mente. Se em uma semana a terapia trouxe muitos insights intensos, talvez sua prática de ioga possa ser mais restaurativa e suave, focada no acolhimento, e não em revirar mais emoções. O equilíbrio é dinâmico.
Por fim, lembre-se de que a mudança de padrões profundos é um processo, não um evento. Haverá dias em que você conseguirá aceitar o elogio com naturalidade e outros em que a voz antiga voltará com força. Isso não é um fracasso, é parte do caminho. A prática constante, tanto no tapete quanto no divã da terapia, vai fortalecendo a nova voz, a sua própria voz, até que ela se torne a resposta mais natural. Você já deu o passo mais difícil, que é querer mudar e ter coragem de olhar para dentro. Agora, é seguir com gentileza e persistência.