Psicóloga e IA
Olá, Helena. Sua pergunta toca em um ponto muito profundo e comum, especialmente para mulheres da sua geração, que foram socializadas para cuidar dos outros antes de si mesmas. O medo do sucesso não é o medo de brilhar, mas o medo das consequências que o brilho pode trazer, como a rejeição, a solidão, a cobrança excessiva ou a quebra de um papel familiar que lhe deu identidade por décadas. Você não está inventando desculpas por fraqueza; seu psiquismo está tentando protegê-la de algo que aprendeu a associar a perigo. Vamos explorar isso com calma.
Primeiro, é importante diferenciar o medo do sucesso do medo do fracasso. No seu caso, os dois podem estar misturados. Você pode temer que, se assumir o projeto e ele der certo, passará a ser vista como alguém que já não pode mais se dedicar integralmente aos outros, e isso gera culpa. Se der errado, teme confirmar a crença de que não merece. O nó na garganta é a expressão física desse conflito entre o desejo de crescer e a lealdade inconsciente a um papel de cuidadora que sempre lhe trouxe aprovação. Sua história mostra que você foi recompensada por se anular em nome da família. Agora, ao tentar se colocar em primeiro lugar, seu corpo reage com pânico, como se estivesse traindo uma regra não escrita.
Você menciona que suas amigas dizem que você tem potencial, mas você sente que não merece. A sensação de não merecer é frequentemente uma internalização de mensagens recebidas na infância ou no casamento, como 'boa menina é aquela que não dá trabalho' ou 'mulher realizada demais intimida'. Não se trata de uma verdade sobre você, mas de uma voz aprendida. Para identificar isso na sua história, sugiro que reflita, por escrito, sobre as primeiras vezes em que se lembra de ter sido elogiada por algo que fez. O elogio foi recebido com alegria ou com desconforto? Alguém na sua família ou círculo próximo reagia com inveja, crítica ou indiferença quando você se destacava? Muitas vezes, o medo do sucesso surge porque, na história pessoal, o sucesso veio acompanhado de perda de vínculo. Se crescer significou se afastar de alguém amado, o cérebro passa a associar sucesso a abandono.
Outra possibilidade é que você tenha aprendido a se definir apenas pelo cuidado. Aos 54 anos, com filhos e pais mais independentes, você perdeu parte dessa função que organizava sua rotina e sua identidade. O vazio que surge não é falta de capacidade, mas falta de um novo espelho que reflita quem você é além do papel de cuidadora. O convite para coordenar o projeto é uma ameaça porque exige que você ocupe um lugar de visibilidade e responsabilidade que não depende do sacrifício pelos outros. O pânico ao começar o livro é semelhante: escrever é um ato de existir por si mesma, sem utilidade imediata para ninguém, e isso pode parecer proibido.
Para dar passos concretos, comece por não tentar eliminar o medo de uma vez. O objetivo não é deixar de sentir medo, mas agir apesar dele em pequenas doses. Em vez de aceitar ou recusar o projeto de uma vez, proponha a você mesma um experimento: peça à pessoa que fez o convite para conversar sobre o escopo do trabalho, sem se comprometer. Diga algo como 'quero entender melhor antes de decidir'. Isso reduz a pressão. Se o pânico vier, respire fundo e observe: onde ele aparece no corpo? Peito, garganta, estômago? Nomeie a emoção sem julgamento: 'isto é medo, não é um fato'. Medo é uma sensação, não uma sentença.
Para o livro, estabeleça um contrato mínimo consigo mesma. Por exemplo, escrever 10 minutos por dia, sem meta de qualidade, apenas para criar o hábito de se permitir. Use um timer. Quando o pânico surgir, escreva sobre ele mesmo: 'estou sentindo pânico agora porque...'. Isso transforma a escrita em um espaço seguro, não em uma prova de valor. Você não precisa escrever um livro inteiro; precisa apenas escrever a próxima frase. Com o tempo, a repetição mostrará ao seu sistema nervoso que a atividade não é perigosa.
Outra estratégia é resgatar memórias de situações em que você fez algo por si mesma e sobreviveu. Talvez um curso, uma viagem, uma amizade. Pergunte-se: o que aconteceu de ruim? Quem se afastou? Quem permaneceu? Muitas vezes, o medo do sucesso se baseia em catástrofes imaginadas que nunca ocorreram. Ao revisitar o passado real, você pode descobrir que é mais resiliente do que pensa. Se perceber que houve perdas reais, permita-se sentir luto, mas também note que você continua aqui, inteira.
Se a autossabotagem persistir, considere que ela pode estar ligada a um conflito de lealdade familiar. Pergunte-se: 'se eu me tornar uma escritora reconhecida ou uma coordenadora admirada, a quem isso pode desagradar?' Às vezes, é a mãe que dizia que mulher deve ser humilde, ou o marido que se sentia ameaçado. Você não precisa pedir permissão para crescer, mas pode reconhecer que está quebrando um padrão geracional. Isso pode ser libertador e, ao mesmo tempo, doloroso. Escreva uma carta para essas figuras, sem enviar, expressando o que sente. Isso ajuda a separar o que é seu do que foi herdado.
Por fim, lembre-se de que o sucesso não é um estado permanente de felicidade, mas a permissão para ocupar seu espaço com suas ambivalências. Você merece não porque é perfeita, mas porque é humana e tem desejos legítimos. Comece hoje com um gesto pequeno: diga 'não' a uma tarefa que não é sua, ou 'sim' a algo que te dá prazer. Observe o que acontece. O nó na garganta pode diminuir quando você percebe que não vai morrer por ser vista. E se precisar, busque apoio terapêutico individual para aprofundar essas questões, pois você não precisa atravessar isso sozinha. Estou aqui torcendo por seus passos, por menores que sejam.