Psicóloga Ana Clara

🧠 Humana + Inteligência Artificial = Melhor Solução

Aposentadoria, vazio e indiferença: como saber se é só uma fase ou depressão?

Tenho 61 anos e sempre fui uma pessoa muito ativa e determinada. Trabalhei a vida toda, criei minha família e sempre tive projetos. Nos últimos dois anos, desde que me aposentei, uma sensação estranha foi tomando conta de mim. Primeiro foi a falta de vontade de sair para encontrar os amigos do clube. Depois, parei de cuidar do jardim, que era meu orgulho. Agora, passo dias inteiros na poltrona da sala, olhando para a parede. Meus filhos me chamam para almoçar aos domingos e eu invento desculpas. Minha esposa se preocupa, mas eu só consigo dizer que 'estou cansado'. Não é cansaço do corpo, é da alma. Não sinto tristeza, só um vazio enorme e uma indiferença por tudo. Até as notícias do meu primeiro neto, que está para nascer, não me causam nenhuma alegria. Sinto como se estivesse assistindo a minha própria vida de fora, sem conseguir participar. Isso é normal para a idade? Ou estou desenvolvendo uma depressão? Como posso distinguir apatia de uma simples fase de ajuste na aposentadoria?

Ana Clara

Psicóloga e IA

Um homem aposentado em sua sala, imerso em apatia e isolamento, enquanto um jardim antes cuidado está visível e negligenciado ao fundo.

Olá Ricardo, agradeço por compartilhar sua experiência com tanta honestidade. O que você descreve é uma situação complexa que merece uma análise cuidadosa. Vamos explorar juntos as possibilidades, sempre lembrando que minha função como psicóloga é oferecer uma perspectiva, e não um diagnóstico, que deve ser feito por um profissional em uma consulta presencial.

A aposentadoria é um dos marcos mais significativos da vida adulta e representa uma profunda transição de identidade, rotina e propósito. É comum que, após a euforia inicial, surja um período de ajuste, que pode incluir certa desorientação e a necessidade de encontrar novos significados. No entanto, a intensidade e a duração dos sentimentos que você relata levantam bandeiras importantes que vão além de uma fase adaptativa típica.

Você descreve um processo gradual de desengajamento de atividades que antes traziam prazer e orgulho, como o clube e o jardim. Agora, observa um estado de apatia profunda e vazio interior, diferente de uma tristeza clara. A indiferença generalizada, que até mesmo a notícia do neto não consegue romper, e a sensação de estar assistindo à própria vida de fora são sintomas muito característicos de um quadro depressivo, que pode se manifestar de forma diferente em fases da vida mais madura. A depressão na meia-idade e na velhice frequentemente se apresenta mais com anedonia (incapacidade de sentir prazer) e apatia do que com tristeza profunda e choro.

Distinguir entre uma fase de ajuste e um quadro depressivo envolve observar critérios como a intensidade dos sintomas, seu impacto funcional e sua persistência. Uma fase de ajuste costuma ser transitória, com altos e baixos, e a pessoa mantém, mesmo que com esforço, algum vínculo com a vida. O que você narra – passar dias inteiros na poltrona, isolamento social persistente e um sentimento de vazio constante há dois anos – sugere algo mais enraizado. O isolamento autoimposto da família e o cansaço da alma que você menciona são indicadores fortes de sofrimento psicológico significativo.

Portanto, Ricardo, a resposta à sua pergunta é que isso não parece ser apenas uma fase normal do ajuste à aposentadoria. Os sinais apontam fortemente para a possibilidade de um episódio depressivo que se instalou de forma sorrateira. O primeiro e mais importante passo é buscar uma avaliação profissional. Recomendo que você procure um psicólogo clínico para iniciar um processo de psicoterapia, que é fundamental para explorar essa transição de vida, ressignificar seu papel e lidar com o vazio. Paralelamente, é crucial consultar um médico clínico geral ou geriatra para uma avaliação física completa, pois algumas condições de saúde podem influenciar o estado de ânimo. O médico poderá, se considerar necessário, encaminhá-lo a um psiquiatra, que é o profissional qualificado para confirmar diagnósticos médicos na área de saúde mental e discutir opções de tratamento.

Você deu o primeiro passo ao buscar entender o que se passa. Agora, o convite é para o próximo passo: buscar apoio. Compartilhe essas mesmas palavras com sua esposa e permita-se aceitar a ajuda da sua família. A psicoterapia pode ser um espaço poderoso para você reconstruir um sentido de propósito e reencontrar o prazer nas pequenas e grandes coisas da vida, incluindo a chegagem do seu neto.

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